O Que Economistas Podem Falar Sobre Blockchain? | Dados da Bolsa

O Que Economistas Podem Falar Sobre Blockchain?

A lista de economistas que falam sobre criptomoedas é enorme, assim como a lista de bobagens ditas por economistas nesse assunto. Após muitas apostas de investidores mais conservadores ou economistas que ignoram as propriedades tecnológicas e microeconômicas desses novos ativos, fica difícil acreditar que possa haver como economistas possam contribuir sobre o debate. Respondi anteriormente algumas objeções de colegas de profissão num texto anterior, focando em questões de finanças e política monetária, mas ainda falta dizer no que a economia ajuda a compreender a estrutura das criptomoedas.

Felizmente, a vida acadêmica é mais do que a coluna do Paul Krugman no NYT e há economistas teóricos e bem treinados avaliando essa questão. Recentemente, o respeitado National Bureau of Economic Research (NBER) dos EUA divulgou um artigo sobre a estrutura do mercado de mineração em moedas como BitcoinEthereum e Litecoin. Esse artigo, não apenas brilhante do aspecto de modelagem, traz grandes insights para a prática dos investidores. Pretendo, nesse texto, compartilhar alguns deles aplicados às questões de concentração de mercado e maiores ou menores fees.

Antes de mais nada, é importante compreender que a estrutura de mineração é fruto da interação forças de mercado. Pessoas apenas compram equipamentos caríssimos e aceitam custos elevados de energia elétrica se a mineração for lucrativa. Temos que os benefícios da mineração vêm de duas fontes de remuneração: a emissão de moedas e as taxas pagas por confirmar transações. No modelo derivado no artigo, quanto maior a remuneração, maior o número de interessados em entrar no mercado de criptomoedas.

Podemos derivar algumas conclusões disso. Quando eu, na última coluna, disse que era pessimista sobre as perspectivas do Litecoin, foi baseado no fato de que a Lightning Network (LN) reduz a remuneração dos mineradores. Não apenas o Litecoin perderia parte da utilidade – e, portanto, possivelmente do preço – com as transações mais rápidas do Bitcoin, mas a implementação da LN na rede do Litecoin também traria uma remuneração baixa aos mineradores. Como o preço do Litecoin já não é tão significantemente alto e sua rede não tão descentralizada, há a possibilidade da rede se tornar relativamente propensa a ataques. Isso é uma projeção baseada num modelo teórico, porém sugere um risco não desprezível para o futuro do Litecoin.

Ao por reduzirem a remuneração dos mineradores, há riscos para diversas soluções baseadas numa segunda camada sobre a Blockchain, como a Lightning Network. Com as sucessivas diminuições na emissão de moedas – bitcoins e litecoins, por exemplo, não serão emitidos para sempre –, as blockchains a longo prazo têm suas estruturas dependentes das rendas de mineração. Com uma remuneração baixa a mineradores, eles saem do mercado e essas redes podem se tornar mais suscetíveis a ataques. Se as soluções de escalabilidade baseadas em redes paralelas a blockchain forem demasiadamente eficientes, isso pode ser um risco para elas próprias.

Podemos ver que o modelo microeconômico desenvolvido permite algumas conclusões sobre os riscos de longo prazo para as criptomoedas cujo algoritmo de mineração é similar ao do Bitcoin, o chamado Proof-of Work. Entretanto, há modelos que elucidem pontos de blockchains baseadas em outros algoritmos? Há pesquisaque sugere o risco de ataques em moedas baseadas em Proof-of-Stake por agentes maliciosos suficientemente grandes. Essa tecnologia distribui as novas criptomoedas e as rendas de confirmação de transações para as pessoas de acordo com a quantidade de criptomoedas que elas já possuem. Os agentes não atacam a rede porque, caso a ataquem, perdem seu investimento.

Isso assume que os agentes estão na rede por investimento. Mas e se eles quiserem entrar na rede por motivos políticos ou, aleatoriamente, quiserem destruí-la? Nesse contexto, bastaria uma pessoa/empresa/país/entidade com muito dinheiro declarar sua vontade de destruir a rede e começar a comprar moedas. Possivelmente o risco da ameaça se concretizar faria os demais participantes da blockchain tentarem fugir do seu investimento, puxando o preço das criptomoedas para baixo e diminuindo o custo do ataque. Isso é particularmente arriscado num mundo onde alguns governos autoritários podem se mostrar contrários a redes descentralizadas.

Se eu pudesse resumir esse texto em uma frase, seria uma das mais clássicas da economia, de Adam Smith: “Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelos próprios interesses.”. Não podemos esquecer que blockchains se sustentam porque há um grupo de pessoas que ganham ao manter a rede, sem apelo ao altruísmo. Nesse texto, vimos como, ancorada nesse princípio, a microeconomia ajuda a compreender dois algoritmos importantes para a emissão de criptomoedas, podendo ser aplicadas em demais sistemas. Dominar bem princípios de microeconomia, teoria dos jogos e organização industrial é um esforço que traz retornos para quem trabalha com a análise de criptoativos. Espero que mais analistas se interessem pelos assuntos no futuro, para o bem da comunidade de criptomoedas.

Fonte:https://br.investing.com/analysis/o-que-economistas-podem-falar-sobre-blockchain-200219894

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